Acho que poucos aqui conhecem essa incrível poeta búlgara chamada Kapka Kassabova. Por isso, é um prazer e uma honra apresentá-la a vocês. É possível que seja a primeira vez que seus poemas são traduzidos para o português. Conheci a poesia de Kapka há quase uma década, quando tive a oportunidade de viajar para Bulgária. Trouxe comigo dois de seus livros: “Geography for the lost” e “Someone elses’s life” – são deste último os dois poemas que traduzi, ambos abordam a questão da emigração forçada.
Kapka nasceu em Sofia, em 1973, mas ainda adolescente se viu obrigada a deixar o país com sua família. No começo dos anos 1990, a Bulgária passava por um momento de extrema penúria, e o mundo balançava com a queda do Muro de Berlim. Os países da cortina de ferro foram os mais afetados: “Quando o muro caiu, minha geração se tornou adulta. Éramos as últimas crianças da Europa comunista. Eu tinha apenas 16 anos quando tudo isso aconteceu, e foi nesse momento que comecei a aprender inglês.”
A família emigrou para a Nova Zelândia e foi lá que ela começou a escrever, num idioma que não era seu. Segundo Kapka, o mais doloroso dessa emigração idiomática é o período de autossilenciamento, quando a escritora se perde da literatura de sua língua mãe, e então percebe que não há volta. “Mas nesse momento ainda estamos mudos na nova literatura, no novo idioma, e o futuro é imprevisível.”
As aspas acima foram retiradas de uma reportagem que escrevi anos atrás para a Revista da Cultura. O texto é intitulado “Língua Madrasta”e fala sobre escritores e escritoras que, por opção ou imposição, escrevem em idiomas estrangeiros. Deixo o link disponível para quem tiver interesse de ler.
Em trânsito
Há um campo de lama congelada
e no meio – a fronteira.
Deste lado da fronteira
um pé de pera que não dá fruta.
Debaixo da árvore um homem velho
numa jaqueta emprestada
com uma sacola plástica,
sentado ou ajoelhado
sobre um tronco.
A lama abraçou seus movimentos.
Outros partiram com seus filhos.
A fronteira está a dez passos de distância.
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Segurança
Depois de um longo dia
Meu pai tranca as portas
As janelas
As persianas das janelas
Tranca lá fora a voz do vento
A dúvida de ontem
Minha mãe desliga a luz
De todos os quartos, de todos os armários
Desliga a TV
A luz vermelha do coração fosqueando
A última estrela
Neste céu eternamente estrangeiro
E cuidadosamente eles deitam na cama
Escutando o som
Das crianças crescendo
Do arquivo da Biblioteca Libertaria Armando Borghi
Luce Fabbri nasceu em Roma, em 25 de julho de 1908. Filha do militante e intelectual anarquista Luigi Fabbri, recebeu, desde a infância em família, uma educação marcada pelos ideias de solidariedade e liberdade. Em 1928, poucos depois de ter conseguido a graduação em Letras na Universidade de Bolonha, com uma tese sobre Élisée Reclus, fugiu clandestinamente para a França, a fim de se juntar ao pai, um exilado antifascista.
A partir de 1929, estabeleceu-se com os pais no Uruguai, onde permaneceria pelo resto da vida. Docente de História na Escola Média Superior e então — por outros quarenta anos — de Literatura Italiana na Universidade de Montevidéu, depois da morte do pai, ficou à frente da revista Studi Sociali, de 1935 até 1946.
Aos 24 anos, publicou o volume poético I canti dell’attesa (Montevidéu, 1932 — ainda sem tradução para o português). Seguiram-se, então, inúmeros livros de argumento político, entre eles: Gli anarchici e la rivoluzione spagnola (com Diego Abad de Sabtillan); Ginevra 1938; La libertà nelle crisi rivoluzionarie (Montevidéu, 1947); L’anticomunismo, l’antiimperialismo e la pace (Montevidéu, 1949).
Assumiu a direção e a redação dos jornais Rivoluzione Libertaria (1938), Socialismo y Libertad (1943–1944), Opción Libertaria (Orgão do GEAL — Grupo de Estudos e Ação Libertária, Montevidéu, a partir de 1986). Colaborou com jornais e revistas de vários países, em particular com Volontà, Cénit, Garibaldi e A rivista anarchica.
Em 1993, pela casa editorial Biblioteca Franco Serantini di Pisa, publicou o volume Luigi Fabbri. Storia di un uomo libero, comovente reconstrução do percurso político e humano de seu pai. Morreu em Montevidéu, em 9 de agosto de 2000.
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Todos os dados acima são uma tradução do breve preâmbulo de seu último livro, Propinqua Libertas, escrito pelo organizador da obra e amigo da autora, Gianpiero Landi. A relevância do Propinqua Libertas se concentra em dois motivos fundamentais: o primeiro é biográfico, pois se trata de sua última obra, já no estertor de uma vida inteira dedicada à luta anarquista e antifascista, e ao aprimoramento das ideias revolucionárias a partir de uma perspectiva feminista; o segundo motivo é poético, afinal Luce escreveu apenas dois volumes de poesia, este Propinqua Libertas e I canti dell’attesa, nos quais está reunida toda a potência lírica da escritora.
Fiz a tradução de alguns poemas do Propinqua Libertas como forma de homenagear Luce e, quiçá, torná-la um pouco mais conhecida fora do círculo anarquista. Para aqueles e aquelas que se interessarem, a versão completa e original do livro está disponível em PDF gratuito no repositório do Anarkio.net.
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Os poemas traduzidos
Insônia
para Olga
Estou buscando o sonho
e encontro as quimeras
dispersas na negra geografia.
Te chamo, minha pequena,
mas você vai embora,
separando teus sonhos dos meus.
Eu sei onde te encontrar:
eu adubo, você semente
para a fome do mundo. A matilha
ladra nos dois caminhos.
Mas há mãos estendidas.
Não importa se no final
a que te encontre não seja a minha.
Só quero estar perto dos teus pés
para engolir os charcos
ocultos na luz do grande verão.
Liberdade
Cada hora do inverno que se aproxima
traz um presente.
As veias o recebem,
entra com o sol do meio-dia
que apenas nos aquece
e também vem com os novos frios,
com a chuva já gelada
que cai pesada, cheia de experiência,
e lava até os ossos
aclarando as faces
e fazendo estalar a liberdade.
Já não temo o sorriso das pessoas,
nem me envergonha a palavra amor.
Eu a chamava de solidariedade,
porque amor é uma palavra que se cansa
caso a pronuncie duas vezes, e se esconde.
Mas eu não escondo nada.
Agora digo o que vejo nos olhos
da pequena Mônica descalça:
socialismo é amor e liberdade.
Ainda um pouco
Rumor de voos na soleira escura.
Ainda um pouco; ainda devo pensar
em como posso medir o nada;
ainda devo aprender
a esquadrinhar o fundo do silêncio,
a caminhar na escuridão.
Não estou preparada: me dê tempo
antes de entrar.
Não preciso
que ninguém me empurre: só devo
me acostumar a um sono sem sonho,
ao vazio opaco da eternidade.
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Os poemas originais
Insomnio
Estoy buscando el sueño
y encuentro las quimeras
dispersas en la negra geografia.
Te llamo, mi pequeña,
y de pronto te alejas,
separando tus sueños de los míos.
Yo sé dónde encontrarte:
yo abono, tu semilla
para el hambre del mundo. La jauría
ladra en los dos senderos.
Pero hay manos tendidas.
No importa si al final
la que te encuentre no ha de ser la mía.
Solo quiero estar cerca de tus pies
para tragarme los tembladerales
ocultos en la luz del gran estío.
Libertad
Cada hora del invierno que se acerca
trae su regalo.
Lo reciben las venas,
penetra con el sol de mediodía
que nos calienta apenas
y también viene con los nuevos fríos,
con la lluvia ya helada
que cae pesada, llena de experiencia,
y lava hasta los huesos
despejando las frentes
y haciendo restallar la libertad.
Ya no temo la risa de la gente,
ni me avergënza la palabra amor.
Yo lo llamaba solidariedad,
porque amor es palabra que se cansa
si la dices dos veces, y se esconde.
Mas yo no escondo nada.
Ahora digo lo que veo en los ojos
de la pequeña Mónica descalza:
socialismo es amor y liberdade.
Ancora un poco
Frullo di voli sulla solia oscura.
Ancora un poco; ancor debbo pensare
a come possa misurare il nulla;
ancor debbo imparare
a scandagliare il fondo del silenzio,
a caminare nell’ oscurità.
Non sono preparata: dammi tempo
prima d’entrare.
Non c’ è bisogno
che nessuno mi spinga: solo debbo
abituarmi a un sonno senza sogni,
al vuoto opaco dell’ eternità.
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A Tenda de Livros, editora focada na difusão e publicação de obras com um olhar anarquista e feminista, disponibiliza um material bastante interessante sobre a Luce (e outras maravilhosas autoras como Maria Lacerda de Moura). Entre os possíveis novos lançamentos da editora, está a tradução completa do Propinqua Libertas.
[jr. bellé] – originalmente publicado no Fazia Poesia.
Há poucos meses estive no México e achei por bem fuçar sebos e livrarias em busca de algo mais contemporâneo do que Octávio Paz e Efraín Huerta, minhas solitárias fronteiras na poesia mexicana. Por sorte encontrei inúmeros exemplares da coleção La Centena Poesía por uma pechincha. Trata-se de reedições de importantes obras de gerações recentes em formato de bolso. Botei na sacola A la salud de los enfermos, de Juan Domingo Argüelles, Cantar del Marrakech, de Juan Carlos Bautista, Donde habita el cangrejo, de Eduardo Langagne e este La espada de san Jorge, de Héctor Carreto. Por ser pouco conhecido por nós, leitores lusófonos - creio que Carreto ainda não foi traduzido para o português -, com gosto me aventuro na tradução de três poemas de seus poemas.
…
A um empregado
Te incomoda, empregado Vargas,
que me deite com sua esposa?
Use a lógica, meu amigo;
sou mais bonito - fazer o quê,
e sou seu chefe,
lembre-se.
…
Vaidade de vaidades
Farrah Fawcett-Majors, a de dourados cachos,
Bo Derek, a loira de tranças africanas,
Linda Carter, a Mulher Maravilha,
e todas as deusas de Hollywood
estão profundamente indignadas
porque Héctor, o poeta,
prefere cantar a ti, oh doce Lesbia,
modesta secretária de banco.
…
As pernas de Hammelin
I
Certo dia a secretaria foi sem meias ao trabalho.
Isso trouxe cegueira aos guardas
e júbilo aos pássaros,
que cantaram com força.
O chefe enlouqueceu: não acreditou ter em frente
um império de pele sobre duas sapatilhas:
o que dizer do brilho que desperta essa paisagem,
o que dizer do pé,
pele metida em outra pele.
O intendente, espuma nos lábios,
não saiu mais do banheiro
e as outras secretárias, boquiabertas,
se tornaram fruta amarga
e perderam dentes, lábios masculinos.
II
Roma ardeu:
transformaram o escritório
em um punhado de ratos abestalhados.
Magia negra?, magia verde?
A blusa de sempre, a saia de sempre,
os saltos de sempre.
Então, porque veio
sem meias?, esqueceu? foi de propósito?
(Ela sorri,
como se não soubesse do assunto;
suas pernas, no entanto, continuam esfregando o ar
até acender o edifício.)
III
Enfim, só faltou nesta história
o príncipe azul que pediu sua mão,
perdão,
o pé.
… Héctor Carreto nasceu na Cidade do México em 1953. Poeta, escritor, tradutor e editor, é também professor e pesquisador na Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM). Em 2002 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Aguascalientes, um dos mais importantes do país, pelo livro Coliseo. O estilo de Hector é bastante idiossincrático - se vale da mitologia para ressignificá-la; lança mão de diversas estruturas retóricas para além do verso livre; se cobre de lírica lúdica a fim de expressar temas delicados. Todos os poemas aqui traduzidos foram retirados do livro La espada de san Jorge (1982), pelo qual recebeu o Premio Nacional de Poesía Carlos Pellicer.
A BANDEIRA VERMELHA CAVALGA NA REVOLUÇÃO- RUBÉN TREJO Este texto é o segundo capítulo do livro Magonismo – Utopía y Revolución, de Rubén Trejo. Por meio de uma profunda pesquisa documental, o autor detalha as alianças e traições, as conquistas e derrotas do exército libertário durante a Revolução Mexicana. Apesar do grande objetivo em comum – por fim ao governo do ditador Porfirio Díaz – o exército era composto por diferentes grupos com distintas pretensões e ideologias. Nas duas principais frentes estavam os maderistas, apoiadores de Francisco Madero, e os magonistas, apoiadores de Ricardo Flores Magón e reunidos em torno da Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano. O último é o grupo onde lutavam os anarquistas: neste capítulo, Rubén Trejo conta a história de suas lutas, ascensões e queda.