Jr. Bellé

  • A resistência dos povos indígenas do Sul

    A volta às aulas foi marcada pela presença da cacica Iracema Gatéh Nascimento, líder Kaingang da Retomada Multiétnica Gãh Rê Xokleng e Kaingang do Morro Santana. | Crédito: Foto: Rafa Dott
    • Artigo publicado originalmente no Brasil de Fato
    • Artigo replicado no site Terras Indígenas no Brasil

    “Eu não sabia que tinha indígenas no Sul”. Essa é uma das frases que mais tenho escutado desde que lancei o livro de poemas Retorno ao ventre – mynh fi nugror to vesikã kãti sobre o processo de invasão dos territórios indígenas no Paraná e sua resistência ancestral. Pois fique sabendo: eles existem, existiram e existirão.

    Não é nada raro ouvir de bocas progressistas que a região Sul é um caso perdido, atrapada no sangue movediço do neofascismo, que seria melhor para todo mundo que se separasse do restante do país. Há argumentos bastante recentes que embasam essa rechaça, mas há também um detalhe dos mais importantes: ao dizer isso, estamos abandonando aliados à própria sorte, e boa parte deles são indígenas, no fronte há mais tempo do que se pode calcular. Muito antes dos barcos repletos de europeus pobres aportarem por aqui com suas imensas levas de trabalhadores e trabalhadoras. Muito antes da invenção dos barcos.

    Mas nem precisamos ir tão longe. Pense na luta contra o Marco Temporal, uma pauta recente das mais imprescindíveis, que, ao defender as retomadas e territórios indígenas, advoga por uma causa comum: a preservação ambiental num contexto de distopia climática, ou seja, a preservação da própria espécie humana.

    Apesar de ser uma pauta geral defendida por povos e associações indígenas de todo o país, o pleito que subiu ao Supremo Tribunal Federal (STF) descende de uma peleja dos povos xokleng, kaingang e guarani pela terra indígena Ibirama-Laklãnõ, em Santa Catarina – sim, Santa Catarina tem mais do que papagaios fascistas, prédios de arquitetura duvidosa em seu famoso balneário, hordas bolsonaristas e argentinos curtindo uma praia ridiculamente deslumbrante: Santa Catarina tem povos indígenas que resistem, que precisam, merecem e demandam nosso apoio.

    Se voltarmos um pouco no tempo, podemos lembrar de lideranças como Ângelo Kretã. Já ouviu falar dele? Kretã esteve à frente das grandes retomadas de terras indígenas no Paraná e Rio Grande do Sul durante a década de 1970. Ele foi o primeiro legislador indígena do Brasil, eleito vereador em 1976 pelo MDB, em plena ditadura militar. Morreu em circunstâncias bastante controversas em janeiro de 1980. Procure saber. O legado de Kretã precisa ser preservado.

    Esses são apenas dois exemplos das diversas, e cruciais, lutas que se apresentam à nossa geração – a luta pela terra e pela memória – e não permitem titubeios ou procrastinação. Do contrário, um futuro nebuloso nos espera, se é que haverá futuro.

  • Dois poemas de Kapka Kassabova

    Crédito da foto: Roberto Ricciuti

    Acho que poucos aqui conhecem essa incrível poeta búlgara chamada Kapka Kassabova. Por isso, é um prazer e uma honra apresentá-la a vocês. É possível que seja a primeira vez que seus poemas são traduzidos para o português. Conheci a poesia de Kapka há quase uma década, quando tive a oportunidade de viajar para Bulgária. Trouxe comigo dois de seus livros: “Geography for the lost” e “Someone elses’s life” – são deste último os dois poemas que traduzi, ambos abordam a questão da emigração forçada.

    Kapka nasceu em Sofia, em 1973, mas ainda adolescente se viu obrigada a deixar o país com sua família. No começo dos anos 1990, a Bulgária passava por um momento de extrema penúria, e o mundo balançava com a queda do Muro de Berlim. Os países da cortina de ferro foram os mais afetados: “Quando o muro caiu, minha geração se tornou adulta. Éramos as últimas crianças da Europa comunista. Eu tinha apenas 16 anos quando tudo isso aconteceu, e foi nesse momento que comecei a aprender inglês.”

    A família emigrou para a Nova Zelândia e foi lá que ela começou a escrever, num idioma que não era seu. Segundo Kapka, o mais doloroso dessa emigração idiomática é o período de autossilenciamento, quando a escritora se perde da literatura de sua língua mãe, e então percebe que não há volta. “Mas nesse momento ainda estamos mudos na nova literatura, no novo idioma, e o futuro é imprevisível.”

    As aspas acima foram retiradas de uma reportagem que escrevi anos atrás para a Revista da Cultura. O texto é intitulado “Língua Madrasta”e fala sobre escritores e escritoras que, por opção ou imposição, escrevem em idiomas estrangeiros. Deixo o link disponível para quem tiver interesse de ler.

    Em trânsito

    Há um campo de lama congelada
    e no meio – a fronteira.
    Deste lado da fronteira
    um pé de pera que não dá fruta.
    Debaixo da árvore um homem velho
    numa jaqueta emprestada
    com uma sacola plástica,
    sentado ou ajoelhado
    sobre um tronco.

    A lama abraçou seus movimentos.
    Outros partiram com seus filhos.
    A fronteira está a dez passos de distância.
    _

    Segurança

    Depois de um longo dia
    Meu pai tranca as portas
    As janelas
    As persianas das janelas
    Tranca lá fora a voz do vento
    A dúvida de ontem

    Minha mãe desliga a luz
    De todos os quartos, de todos os armários
    Desliga a TV
    A luz vermelha do coração fosqueando
    A última estrela
    Neste céu eternamente estrangeiro

    E cuidadosamente eles deitam na cama
    Escutando o som
    Das crianças crescendo

    [jr. bellé]

  • Três poemas de Luce Fabbri

    Do arquivo da Biblioteca Libertaria Armando Borghi

    Luce Fabbri nasceu em Roma, em 25 de julho de 1908. Filha do militante e intelectual anarquista Luigi Fabbri, recebeu, desde a infância em família, uma educação marcada pelos ideias de solidariedade e liberdade. Em 1928, poucos depois de ter conseguido a graduação em Letras na Universidade de Bolonha, com uma tese sobre Élisée Reclus, fugiu clandestinamente para a França, a fim de se juntar ao pai, um exilado antifascista.

    A partir de 1929, estabeleceu-se com os pais no Uruguai, onde permaneceria pelo resto da vida. Docente de História na Escola Média Superior e então — por outros quarenta anos — de Literatura Italiana na Universidade de Montevidéu, depois da morte do pai, ficou à frente da revista Studi Sociali, de 1935 até 1946.

    Aos 24 anos, publicou o volume poético I canti dell’attesa (Montevidéu, 1932 — ainda sem tradução para o português). Seguiram-se, então, inúmeros livros de argumento político, entre eles: Gli anarchici e la rivoluzione spagnola (com Diego Abad de Sabtillan); Ginevra 1938; La libertà nelle crisi rivoluzionarie (Montevidéu, 1947); L’anticomunismo, l’antiimperialismo e la pace (Montevidéu, 1949).

    Assumiu a direção e a redação dos jornais Rivoluzione Libertaria (1938), Socialismo y Libertad (1943–1944), Opción Libertaria (Orgão do GEAL — Grupo de Estudos e Ação Libertária, Montevidéu, a partir de 1986). Colaborou com jornais e revistas de vários países, em particular com Volontà, Cénit, Garibaldi e A rivista anarchica.

    Em 1993, pela casa editorial Biblioteca Franco Serantini di Pisa, publicou o volume Luigi Fabbri. Storia di un uomo libero, comovente reconstrução do percurso político e humano de seu pai. Morreu em Montevidéu, em 9 de agosto de 2000.

    ____

    Todos os dados acima são uma tradução do breve preâmbulo de seu último livro, Propinqua Libertas, escrito pelo organizador da obra e amigo da autora, Gianpiero Landi. A relevância do Propinqua Libertas se concentra em dois motivos fundamentais: o primeiro é biográfico, pois se trata de sua última obra, já no estertor de uma vida inteira dedicada à luta anarquista e antifascista, e ao aprimoramento das ideias revolucionárias a partir de uma perspectiva feminista; o segundo motivo é poético, afinal Luce escreveu apenas dois volumes de poesia, este Propinqua Libertas e I canti dell’attesa, nos quais está reunida toda a potência lírica da escritora.

    Fiz a tradução de alguns poemas do Propinqua Libertas como forma de homenagear Luce e, quiçá, torná-la um pouco mais conhecida fora do círculo anarquista. Para aqueles e aquelas que se interessarem, a versão completa e original do livro está disponível em PDF gratuito no repositório do Anarkio.net.

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    Os poemas traduzidos

    Insônia
    para Olga

    Estou buscando o sonho
    e encontro as quimeras
    dispersas na negra geografia.

    Te chamo, minha pequena,
    mas você vai embora,
    separando teus sonhos dos meus.

    Eu sei onde te encontrar:
    eu adubo, você semente
    para a fome do mundo. A matilha
    ladra nos dois caminhos.
    Mas há mãos estendidas.
    Não importa se no final
    a que te encontre não seja a minha.

    Só quero estar perto dos teus pés
    para engolir os charcos
    ocultos na luz do grande verão.

    Liberdade

    Cada hora do inverno que se aproxima
    traz um presente.
    As veias o recebem,
    entra com o sol do meio-dia
    que apenas nos aquece
    e também vem com os novos frios,
    com a chuva já gelada
    que cai pesada, cheia de experiência,
    e lava até os ossos
    aclarando as faces
    e fazendo estalar a liberdade.
    Já não temo o sorriso das pessoas,
    nem me envergonha a palavra amor.
    Eu a chamava de solidariedade,
    porque amor é uma palavra que se cansa
    caso a pronuncie duas vezes, e se esconde.
    Mas eu não escondo nada.
    Agora digo o que vejo nos olhos
    da pequena Mônica descalça:
    socialismo é amor e liberdade.

    Ainda um pouco

    Rumor de voos na soleira escura.
    Ainda um pouco; ainda devo pensar
    em como posso medir o nada;
    ainda devo aprender
    a esquadrinhar o fundo do silêncio,
    a caminhar na escuridão.

    Não estou preparada: me dê tempo
    antes de entrar.
    Não preciso
    que ninguém me empurre: só devo
    me acostumar a um sono sem sonho,
    ao vazio opaco da eternidade.

    ____

    Os poemas originais

    Insomnio

    Estoy buscando el sueño
    y encuentro las quimeras
    dispersas en la negra geografia.

    Te llamo, mi pequeña,
    y de pronto te alejas,
    separando tus sueños de los míos.

    Yo sé dónde encontrarte:
    yo abono, tu semilla
    para el hambre del mundo. La jauría
    ladra en los dos senderos.
    Pero hay manos tendidas.
    No importa si al final
    la que te encuentre no ha de ser la mía.

    Solo quiero estar cerca de tus pies
    para tragarme los tembladerales
    ocultos en la luz del gran estío.

    Libertad

    Cada hora del invierno que se acerca
    trae su regalo.
    Lo reciben las venas,
    penetra con el sol de mediodía
    que nos calienta apenas
    y también viene con los nuevos fríos,
    con la lluvia ya helada
    que cae pesada, llena de experiencia,
    y lava hasta los huesos
    despejando las frentes
    y haciendo restallar la libertad.
    Ya no temo la risa de la gente,
    ni me avergënza la palabra amor.
    Yo lo llamaba solidariedad,
    porque amor es palabra que se cansa
    si la dices dos veces, y se esconde.
    Mas yo no escondo nada.
    Ahora digo lo que veo en los ojos
    de la pequeña Mónica descalza:
    socialismo es amor y liberdade.

    Ancora un poco

    Frullo di voli sulla solia oscura.
    Ancora un poco; ancor debbo pensare
    a come possa misurare il nulla;
    ancor debbo imparare
    a scandagliare il fondo del silenzio,
    a caminare nell’ oscurità.

    Non sono preparata: dammi tempo
    prima d’entrare.
    Non c’ è bisogno
    che nessuno mi spinga: solo debbo
    abituarmi a un sonno senza sogni,
    al vuoto opaco dell’ eternità.

    ____

    A Tenda de Livros, editora focada na difusão e publicação de obras com um olhar anarquista e feminista, disponibiliza um material bastante interessante sobre a Luce (e outras maravilhosas autoras como Maria Lacerda de Moura). Entre os possíveis novos lançamentos da editora, está a tradução completa do Propinqua Libertas.

    [jr. bellé] – originalmente publicado no Fazia Poesia.

  • Poesia anarquista

    “Faune”, poema visual de Joan Brossa

    Este artigo tem um título problemático, é preciso reconhecer. O termo “anarquista” aqui é usado de maneira desavergonhadamente genérica, o que é no mínimo questionável. “Anarquista” pode se referir tanto à poetas engajados no movimento (e que publicaram poemas em jornais canhotos), quanto ao tema da revolução libertária e até mesmo a temas importantes para a luta socialista.

    Um dos mais importantes guardiões da memória libertária brasileira atende pelo nome de Edgard Leuenroth: jornalista, tipógrafo e fundador de inúmeros periódicos importantes como A Plebe, A Folha do Povo, Ação Direta e etc.

    Durante quase toda sua militância, Leuenroth colecionou os registros do movimento que fez parte, e como homem das letras, deu especial atenção à literatura e à poesia. Desde 1900, e por cerca de cinco décadas, ele catalogou poemas com temáticas anarquistas publicados na imprensa operária e livre-pensadora. Nem sempre eram poemas exaltadores ou que propunham um didatismo ideológico, em sua maioria eram singelos versos de protesto.

    O que dá o tom à compilação de Leuenroth é sua fonte de pesquisa, a imprensa operária, em que apenas companheiros e camaradas eram convidados a publicar. É um recorte temático que favorece a inclusão de diferentes matizes da esquerda revolucionária. Entre os nomes mais recorrentes estão poetas notoriamente anarquistas: Neno Vasco, José Oiticica, Gigi Damiani, Afonso Schmidt, Raymundo Reis.

    Para quem se interessar pelo compilado de Leuenroth, há uma pequena seleção dele no livro A poesia anarquista brasileira, de Yara Aun Khoury, publicada pela editora Monstro dos Mares. Ou simplesmente clica aqui e baixa uma versão em PDF.

    Foto do catálogo da Editora Monstro dos Mares

    Os esteios
    Para efeitos de generalização, a que esse artigo é afeito, incluo por conta própria, e à deriva de Leuenroth, uma terceira leva de poesia anarquista: aquela produzida por quem tem afinidades sinceras aos ideais libertários, mas não está vinculado a nenhuma organização. São simpatizantes, apoios -  eu os chamo aqui de esteios.

    Esteio é algum material, em geral madeira ou ferro, feito para escorar alguma coisa que pode cair, como a parede de uma casa ou a coluna de uma greve. É também como se nomeia alguém que ajuda, apoia, ampara outrem.

    Me parece que no eco das vozes desses poetas esteios estão os gritos de muitos poetas engajados. Nas suas entrelinhas está o encanto revolucionário, e através delas ele chegará a mais olhos, despertará chamas impensáveis, inspirará gente distante. A ideia anarquista avança fronteiras se nutrindo do que o próprio anarquismo se nutre: do apoio mútuo, da solidariedade e da diversidade. A poesia anarquista abraça esses três campos - temático, engajado e seus esteios - e ainda que não formem um volume único e homogêneo, todos os três são capítulos de uma mesma obra.

    Arquivo de Jaume Maymó: “Joan Brossa a la 2a Fira de Teatre al carrer de Tàrrega”, 1983

    Brossa
    Para ser mais internacionalista, e manter esse artigo no cordel libertário, exemplifico meu argumento: Joan Brossa, poeta e maior expoente do vanguardismo catalão dos meados do século passado.

    Com apenas 18 anos, Brossa lutou a Revolução Espanhola de 1936 ao lado das forças republicanas, mormente compostas por anarquistas e comunistas. Anos depois, conhece o poeta Josep Foix, grande nome do surrealismo literário catalão. Como é de praxe, as vanguardas artísticas dessa época - surrealismo, futurismo, dadaísmo - fizeram com Brossa o que fariam com todo jovem artista daquele tempo: explodiram sua cabeça.

    Brossa passou por todas essas escolas e transcendeu-as. Mergulhou na poesia escrita, depois na poesia visual, na poesia cênica e por fim na antipoesia. Seu trabalho chegou ao Brasil, provavelmente, pelas mãos de João Cabral de Melo Neto.

    Cabral, além de imenso poeta, foi embaixador brasileiro em Barcelona em 1947, em Londres em 1950 (dois anos depois ele é afastado e tem que retornar ao Brasil para responder a um inquérito, acusado de subversão), em 1956 volta para Barcelona e de lá vai para Madrid e Marselha (em 1961 ele volta ao Brasil para ser ministro do Jânio Quadros, cargo que perde em 1964 com o golpe militar), parte então para Genebra, depois Berna, Assunción, Dakar e, por fim, seu último cargo de embaixada fora do país é na cidade do Porto.

    Cabral, além de imenso poeta, foi embaixador brasileiro em Barcelona em 1947, em Londres em 1950 (dois anos depois ele é afastado e tem que retornar ao Brasil para responder a um inquérito, acusado de subversão), em 1956 volta para Barcelona e de lá vai para Madrid e Marselha (em 1961 ele volta ao Brasil para ser ministro do Jânio Quadros, cargo que perde em 1964 com o golpe militar), parte então para Genebra, depois Berna, Assunción, Dakar e, por fim, seu último cargo de embaixada fora do país é na cidade do Porto.

    Cabral se embebedou da poesia de todos esses países. Um pouco dessa trajetória ele escreveu em poemas, que foram compilados no livro Literatura como turismo, publicado pela Alfaguara. Entre os principais responsáveis por essa bebedeira de Cabral estava Joan Brossa. Eles ficaram amigos e se influenciaram mutuamente de maneira irremediável.

    Foi pelo meio campo feito por Cabral que Brossa conheceu a vanguarda Concreta brasileira, e a vanguarda concreta brasileira conheceu Brossa - o que foi um gravíssimo acontecimento sísmico tanto para a vanguarda de lá quanto para a de cá.

    A poesia anarquista, encarnada aqui em muitos poemas de Brossa, um poeta esteio da mais altíssima categoria, viajou para longe, para onde a poesia engajada, publicada nos jornais militantes, jamais imaginaria.

    [jr. bellé] – originalmente publicado na revista Fazia Poesia.

  • Quem dança o blues de Fibonacci?

    Pegue uma história e a despedace. Cada caco um pequeno capítulo, uma peça de  um quebra-cabeça que quando organizado na sequência matemática de Fibonacci – 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21… – forma a imagem de uma novela. Se essa novela for tocada com melancolia, seu som é chamado de Fibonacci Blues. O primeiro conhecido dessa espécie veio ao mundo neste ano, escrito por Edson Cruz.

    Editor do site Musa Rara, organizador da antologia poética Musa Fugidia (editora Moinhos), coordenador de Oficinas Literárias e acima de tudo poeta, Edson Cruz dispensa maiores apresentações – mas alerto que se você ainda não leu Ilhéu e O canto verde das maritacas, ambos da editora Patuá, está fazendo alguma coisa errada com sua vida literária. Neste 2021, Edson lançou Fibonacci Blues – uma novela fractal pela Kotter Editorial e inscreveu seu nome em uma das mais badaladas crises da ficção. Você sabe, a ficção vive de crises, e a atual crise de confiança entre autor e leitor, se não é inédita, ao menos tem feições bem contemporâneas.

    Digo isso, pois Fibonacci Blues é feito de pequenos fragmentos que se conectam de maneira dispersiva, sem necessários nexos de causa nem aparentes erros de continuação. Cada fragmento – caco, peça – basta a si mesmo e, ao mesmo tempo, se conecta com o enredo volátil da novela: chamamos o gênero de novela pelo simples fato de assim ela ter sido nomeada pelo autor, mas Fibonacci Blues poderia tranquilamente ser chamada de partitura ou ideia, e certamente cairia muito bem a alcunha de imagem.

    Os fragmentos são de diferentes naturezas: a maioria deles é inédito, contado a nós em primeira mão pelo narrador; outros são empréstimos de textos e trechos de velhos e novos escritores; e, por fim, provérbios, pensatas e excertos de jornais e revistas.

    Fragmentos desses fragmentos recebem enorme relevância na história. É o caso de Adilson – talvez uma espécie fractal de protagonista – que aparece pela primeira vez no terceiro fragmento, ou se preferir, terceiro capítulo. Tal qual um pirilampo, sua luz se acende de tempos em tempos, como um fio narrativo (que nada mais é que um falso vislumbre de linearidade), por onde é possível ler parte da história através de um personagem. Contudo, na metade do livro descobrimos que na verdade Adilson é o protagonista de um texto de Campos de Carvalho. O que Edson Cruz faz é pegar Adilson emprestado para conduzir um pedaço de sua narrativa.

    É assim, por esses enlaçamentos de diferentes vozes, que o livro se constrói. Caso fosse chamado de partitura, estaríamos diante de um blues feito de samplers e orquestrado com inéditos rifes e distorcidos solos que nos soariam como improvisos do jazz. Caso fosse uma imagem, seria um fractal: fragmentos geométricos repetindo infinitamente a si mesmos, e aqui temos um detalhe interessante: a imagem repetida infinitamente não é a do narrador, não é de Adilson e nem é de nenhum escritor citado: é do autor Edson Cruz.

    Essa característica insere Fibonacci Blues numa crise bastante contemporânea da ficção. Dá pra notar pelos traumas e cicatrizes que estamos num período histórico recheado de crises: sanitária, econômica, política, humanitária, bélica e etc. A crise da ficção é apenas mais uma delas e é, ao mesmo tempo e como não poderia deixar de ser, uma consequência de todas elas. Resumidamente, a crise da ficção é uma crise de confiança entre autor e leitor. A criação de personagens e cenários hoje carece de uma raiz no real, de um pé no chão – desenhar castelos no ar e personagens deslocados de qualquer conexão com a realidade está cada vez mais difícil: há um desinteresse de autores e leitores, e também da crítica, pela ficção em sua forma absoluta.

    É bem provável que essa dificuldade seja consequência das inúmeras crises sociais que vivemos, como se a literatura não pudesse virar as costas e se furtar a refletir sobre elas. O fato é que essa esse cenário levou à ascensão de literaturas do eu, como a autoficção, a pós-ficção e as narrativas de memória. Uma característica dessas literaturas é a turvação da fronteira entre autor e narrador: uma zona cinza em que essas duas instâncias se confundem. Em Fibonacci Blues, Edson Cruz se posiciona exatamente nessa zona.

    Os fragmentos emprestados de outros escritores e outras publicações não são repertório de nenhum personagem do livro, mas de seu autor, que responde também pelos temas que os fragmentos tocam. Autor e narrador se aproximam e se distanciam como se dançassem no ritmo de um jump blues, mas com todo assanhamento das melhores cenas de Grease.

    Fibonacci Blues não existe para responder a essa crise da ficção; existe como parte dela, como sua maturação. Por fim, caso não se chamasse novela e sim ideia, esse livro poderia ser definido como uma grande reflexão: autor e narrador refletidos, lendo um nos olhos e nos ossos do outro suas próprias palavras e assim, num exercício contemporâneo de alteridade, compondo suas próprias ideias a respeito do fazer literário, da natureza da fabulação, especialmente nesses nossos dias turvos, tão turvos que já podem ser chamados de noite.

    [jr. bellé] – originalmente publicado em Mallamargens.

  • Ixé Ygara: por terra e território

    Queria falar, numa toada breve, sobre dois livros que li recentemente e recomendo, pois ambos aterram a luta e os pés.

    O primeiro é “Por terra e território – caminhos da revolução dos povos do Brasil”, lançado pela Teia dos Povos neste 2021, escrito pelo mestre Joelson Ferreira (agricultor, plantador da floresta do assentamento Terra Vista – BA, ex-dirigente nacional do MST, fundador e conselheiro da Teia dos Povos), e por Erahsto Felício (professor do IFBA, historiador que contribui na Divisão de Comunicação da Teia dos Povos).

    Esse livro é essencial para todos aqueles que se interessam ou se engajam nas causas sociais e políticas, pois ele atualiza e localiza a luta, a resistência e a revolução. Atualiza ao colocar no chão conceitos e princípios libertários – de variadas, porém vizinhas, procedências ideológicas, em geral europeias, como o anarquismo e o marxismo – ao lado da tradição de luta e resistência, do pensamento revolucionário e das culturas, ancestralidades e cosmovisões dos povos originários e dos povos da diáspora africana. Ao lado dessas potências, estão os povos do campo e da cidade, igualmente com suas trajetórias e aspirações.

    Além disso, há nesse livro dois pontos a serem ressaltados: mestre Joelson é um homem do campo, da lida diária na terra e é muito significativo que parta dele a formulação das ideias, a assimilação dos conceitos e a organização prática e teórica da Teia dos Povos. Não se trata de um intelectual, analisando e interpretando fatos históricos, mas sim de um homem da base dos movimentos sociais. Ressaltar essa característica tão orgânica das ideias inscritas no livro é umas de suas enormes qualidades. Outro ponto é que o “Por Terra e Território” se propõe a olhar justamente para os erros e fracassos das esquerdas e, a partir deles, propor saídas. Em tudo isso, há uma bonita semelhança com a luta zapatista no sul do México.

    O segundo livro que recomendo é “Ixé Ygara voltando pra ‘ Y’kûá (sou canoa voltando pra enseada do rio)”, escrito por Ellen Lima e também lançado neste 2021 pela Editora Urutau. Este é o primeiro livro de Ellen, do povo Wassu Cocal, é mais um registro da poderosa expressão literária da diáspora indígena brasileira (e que aqui se ouça muitos ecos, especialmente da imensa poeta Eliane Potiguara). O livro é um registro breve, porém extraordinário, de uma identidade em conflito, da paisagem de um lugar em permanente busca por si mesmo: Ellen Lima é nascida e criada na periferia do Rio de Janeiro, mas passou a primeira infância em Cocal, junto ao seu povo, ao povo de seu pai e de seus parentes, e hoje vive em Portugal, onde cursa o doutorado em Modernidades Comparadas na Universidade do Minho, em Braga.

    Em Ellen convivem imponentes identidades, cada qual com suas marcas: a identidade indígena, a diáspora e também a identidade de uma moradora da periferia do Rio de Janeiro: “E nas dúvidas entre Rio, periferia, aldeia e mundo; ficava eu, então, dentro de mim e da escrita. Escrever sempre foi um jeito de externar a melancolia de uma alma que não consegue juntar tantos fragmentos”, escreveu no posfácio.

    Em “Ixé Ygara”, a poeta começa a identificar e colher esses fragmentos. Como se escrevesse um quebra-cabeça, cuja imagem final é um espelho. Ellen se volta, nesse livro de estreia, para sua origem indígena, e a partir dela lê o mundo, as tragédias e as potências. Por isso é frequente nesta obra a mistura entre a língua portuguesa e o Tupi. “Aprendi que antropofagia não se escolhe. Ou a gente devora, ou é devorado. E é bom engolir uma língua dentro da sua língua”, escreve Ellen, também no posfácio. Me perdoe Oswald e todos os signatários do Manifesto Antropófago, me perdoe Caetano e os tropicalistas, mas a expressão literária da diáspora indígena brasileira está reescrevendo toda e qualquer antropofagia, e ela é bem diferente do que estudamos, imaginamos, lemos e ouvimos. Ela é muito melhor.

    [jr.bellé] – originalmente publicado no ANA (Agência de Notícias Anarquistas)

  • Esmerado colecionador de abismos

    Nove anos após sua estreia na poesia com o livro Desistencia (Patuá), Mateus Novaes retorna aos versos escritos, afinal os versos gritados ele jamais abandonou, ainda que o Krias de Kafka, histórica banda punk de Santo André-SP, em que é vocalista, letrista e bebedor tenha lá seus lapsos, como tudo na vida. Fato é que Um frio de hospício na espinha marca o retorno do poeta punk e rueiro para as esquinas do papel.

    Antes de se enveredar pelos intestinos e interstícios do livro, é importante assinalar que seus 41 poemas, divididos ao meio pelo intertítulo Para meus Dreheres, são crus. Não que lhes falte fogo, ou que nasçam da impaciência de uma composição pouco refletida, e nada refinada, do que lhe é mais vital, a linguagem. Trata-se justamente do oposto: neste segundo livro, Novaes talha seus versos com esmero, pensa a forma e os significantes, mas o faz tentando esconder esse labor, parindo uma poesia que apenas parece espontânea: esse é um trabalho silencioso e profundo que nessa obra merece destaque. Significa dizer que a crueza da poesia se manifesta no seu caráter retilíneo, sem desvios ou subterfúgios, numa literatura franca e frontal, que não se furta ao choque e tampouco aos hematomas decorrentes dele. Mesmo suas metáforas, seus jogos de palavras e aliterações não omitem, mas transparecem, como se os poemas estivessem abertos, porém vivos, durante a autópsia que cada leitor faz deles com seus olhos.

    Pois bem, muita coisa aconteceu nesses nove longos anos de (quase) hiato literário. Na poesia de Novaes, contudo, uma característica — ou melhor, uma cicatriz — sobreviveu ao tempo: a ironia. Às vezes ácida e outras apenas triste, ela atravessa a obra feito faca enferrujada nas mãos trêmulas de um velho. E digo isso, pois a velhice é a primeira recorrência notável de Um frio de hospício na espinha. As imagens sobre a passagem do tempo vão sendo empilhadas pelo autor como se fossem livros onde se lê, na geografia das lombadas, um novo e oculto poema. Isso salta aos olhos nos versos de 38: a barba quase toda branca / de um retrato para outro / poucos poemas completos sobraram. Também é sintomático em Som e Suporta quando Novaes exibe o reflexo dos cabelos grisalhos como evidência do rigor do tempo: Dá a impressão de que toda despedida sofrida / não deixou sequer um arranhão / todos os minutos entre grisalho / queda e murchar de pálpebras; Grisalho e com nenhum juízo / sorrio aleatoriamente / aos pássaros imaginários / na praça dos meus miolos desnutridos.

    Outra recorrência de Um frio de hospício na espinha é a oposição irônica à mercantilização e fetichização da existência, e especialmente à capitulação dos valores mais essenciais diante do capitalismo e suas máquinas e algoritmos de avacalhar sonhos e futuros. Essa capitulação quase voluntária de alguns, cuja rendição é publicizada e recompensada pelo sistema, que os alça a exemplos de conduta, é um dos mais frequentes e deliciosos alvos de Novaes neste livro. Isso o insere em discussões bastante contemporâneas que versam a respeito do endeusamento do indivíduo e a consequente destruição da coletividade. As redes sociais e seu individualismo, também os imparáveis e cruéis ataques a comunidades tradicionais, são sintomas explícitos dessa doença.

    Nesse sentido, e já lançando uma ponte com a música, outra esfera imprescindível para quem deseja entender a se aprofundar no lirismo do poeta, é notável que Novaes esteja há tantos anos numa banda, ou seja, num coletivo de pessoas que tocam juntas e dividem as responsabilidades e delícias criativas, mormente numa época em que carreiras solo são hegemônicas no cenário artístico. Caminhar sozinho exige menos concessões e permite que a luz dos holofotes encontre o foco numa única pessoa, um único e soberano indivíduo. Felizmente, Novaes não é desses, e ele faz questão de nos lembrar disso no poema Ninguém: ninguém se importa / se meu filho de 3 anos / foi estuprado pelo tio da Van escolar / e toda vez que vê um embutido cai no choro.

    É a ironia o que faz do poeta o opositor, aquele que lê o mundo e não gosta de nada, nem da prosa barata nem dos autores da distopia. E isso fica claro já nos três primeiros poemas do livro — Faz, 38 e Feita: escancarado, como um recado inicial, o poeta nos conta da sua decepção consigo mesmo, com os amigos e inimigos, em suma, com a humanidade e seus delírios absolutistas. Um exemplo é esta estrofe de Feita: solavancos, decepções já conhecidas / ignoradas / na minha mais alta complacência / comprometem a capacidade motriz / de me revoltar. Outro exemplo é este fragmento de Faz, poema que abre o livro: É muito duvidosa uma raça / que desperdiça um sol / reclamando incessantemente de calor / enclausurados em seus casulos / de concreto rumo à falta / total de oxigênio.

    O poema inaugural condensa ainda outros dois temas que serão desenvolvidos ao longo da obra. O primeiro tema, e que é bem evidente no trecho citado, é a constatação de um engano (constatação essa que apenas a passagem do tempo poderia iluminar): a vida urbana não precisaria ter exilado a natureza, nem os poetas boêmios, os punks e os amantes da rua e da noite não precisariam ter rechaçado com tanta veemência as ideias solares. Abaixo do asfalto, afinal, há barro e nele raízes de árvores primordiais. Esse engano é gritado no poema Deserto: A vida sempre foi no mínimo / a cem quilômetros da praia / desobriguei meus pensamentos de sol / tudo quarto escuro / rodeado de pôsteres em língua estrangeira.

    Em , um poema curto, Novaes comprime numa única imagem a oposição entre o asfalto, que à sua maneira é tão humano, e a natureza, que por conta de um longevo engano, foi tão extraterrestre: Há um atraso em tudo isso / uma planta insistente sob o asfalto / onde pousam distraídos pássaros / que não sabem nada de nós. Por fim, nas primeiras linhas de Sob, o poeta arremata essa questão, que aparecia e desaparecia por entre as linhas do poemário qual um vaga-lume soluçante: É a imensidão que isola / contas atrasadas não apagam as estrelas / tardios, elas e eu, habitamos a mesma mentira.

    Todos estes temas são usados por Novaes para amadurecer sua linguagem poética. Ao mesmo tempo, ele usa essa mesma linguagem para amadurecer os temas que, poema a poema, serão processados por sua sensibilidade e sua crueza. E neste ponto surge uma novidade: diferente de seu livro anterior, Desistencia, neste há uma visualidade concreta. Ou seja, o aspecto formal da poesia deixa de ser totalmente submisso ao conteúdo e passa a protagonizar e redimensionar a mensagem. Creio que o exemplo mais lírico disso esteja no poema Mistura, em que a letra “e” emula a forma de uma gota e assim confere uma dimensão visual sutil e surpreendente para o desfecho do poema:

    mixar-me ao som dos trovões
    pousar na nuvem mais escura
    me molhar por dentro
    de uma única gota
    e
    cair

    Por último e não menos importante, a linguagem deste livro continua fiel ao estilo de Novaes, mas um Novaes mais velho, ainda selvagem e desbocado, só quem com mais ressaca e uma leve dor no ciático. Esse passar do tempo não o tornou mais ou menos punk, mas agora ele é pai e punk, ele é uma Kria de Kafka que fez novos Krias de Kafka. Este Um frio de hospício na espinha exibe a pedagogia punk de Novaes, a paternidade punk e a sapiência punk de quem já tomou pancadas demais e sabe onde o couro calejou e o quanto ainda aguenta de trocação. Ele não é um desses poetas de classe que não podem manchar o traje. Ele é a própria mancha.

    Serviço:

    Para quem se interessar pelo livro, que é uma autopublicação, ele está em pré-venda na conta do Instagram do autor: @novaesmateus1981.

    [jr. bellé] – originalmente publicado no Passa Palavra.

  • Três poemas de Héctor Carreto

    Há poucos meses estive no México e achei por bem fuçar sebos e livrarias em busca de algo mais contemporâneo do que Octávio Paz e Efraín Huerta, minhas solitárias fronteiras na poesia mexicana. Por sorte encontrei inúmeros exemplares da coleção La Centena Poesía por uma pechincha. Trata-se de reedições de importantes obras de gerações recentes em formato de bolso. Botei na sacola A la salud de los enfermos, de Juan Domingo Argüelles, Cantar del Marrakech, de Juan Carlos Bautista, Donde habita el cangrejo, de Eduardo Langagne e este La espada de san Jorge, de Héctor Carreto. Por ser pouco conhecido por nós, leitores lusófonos - creio que Carreto ainda não foi traduzido para o português -, com gosto me aventuro na tradução de três poemas de seus poemas.

    A um empregado
    Te incomoda, empregado Vargas,
    que me deite com sua esposa?
    Use a lógica, meu amigo;
    sou mais bonito - fazer o quê,
    e sou seu chefe,
    lembre-se.

    Vaidade de vaidades
    Farrah Fawcett-Majors, a de dourados cachos,
    Bo Derek, a loira de tranças africanas,
    Linda Carter, a Mulher Maravilha,
    e todas as deusas de Hollywood
    estão profundamente indignadas
    porque Héctor, o poeta,
    prefere cantar a ti, oh doce Lesbia,
    modesta secretária de banco.

    As pernas de Hammelin
    I

    Certo dia a secretaria foi sem meias ao trabalho.
    Isso trouxe cegueira aos guardas
    e júbilo aos pássaros,
    que cantaram com força.
    O chefe enlouqueceu: não acreditou ter em frente
    um império de pele sobre duas sapatilhas:
    o que dizer do brilho que desperta essa paisagem,
    o que dizer do pé,
    pele metida em outra pele.
    O intendente, espuma nos lábios,
    não saiu mais do banheiro
    e as outras secretárias, boquiabertas,
    se tornaram fruta amarga
    e perderam dentes, lábios masculinos.

    II
    Roma ardeu:
    transformaram o escritório
    em um punhado de ratos abestalhados.
    Magia negra?, magia verde?
    A blusa de sempre, a saia de sempre,
    os saltos de sempre.
    Então, porque veio
    sem meias?, esqueceu? foi de propósito?
    (Ela sorri,
    como se não soubesse do assunto;
    suas pernas, no entanto, continuam esfregando o ar
    até acender o edifício.)

    III
    Enfim, só faltou nesta história
    o príncipe azul que pediu sua mão,
    perdão,
    o pé.


    Héctor Carreto nasceu na Cidade do México em 1953. Poeta, escritor, tradutor e editor, é também professor e pesquisador na Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM). Em 2002 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Aguascalientes, um dos mais importantes do país, pelo livro Coliseo. O estilo de Hector é bastante idiossincrático - se vale da mitologia para ressignificá-la; lança mão de diversas estruturas retóricas para além do verso livre; se cobre de lírica lúdica a fim de expressar temas delicados. Todos os poemas aqui traduzidos foram retirados do livro La espada de san Jorge (1982), pelo qual recebeu o Premio Nacional de Poesía Carlos Pellicer.

    [jr.bellé] – originalmente publicado no Medium.

  • Meus livros

     

    Editora: Elefante (2024)
    Páginas: 168
    Capa: Moara Tupinambá
    Tradução para o kaingang: André Luís Caetano
    Comprar: R$60
    Editora: Folheando (2022)
    Páginas: 140
    Capa: Fabio Maciel
    Projeto Gráfico: Pedro Henrique Lobato
    Comprar: R$44
    Editora: Patuá (2017)
    Páginas: 89
    Capa: Rodrigo Sommer
    Projeto Gráfico: Ricardo Ampudia e Kareen Sayuri
    Comprar: R$38
    Editora: Patuá (2015)
    Páginas: 300
    Capa: Aline Lata
    Projeto Gráfico: Leonardo Mathias
    Comprar: R$38
    Editora: Faísca (2009)
    Páginas: 18
    Projeto de Capa: Luiz Carioca
    Diagramação: Farrer
    Ebook Gratuito

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Traduções

    ÍNTIMA LIBERDADE [PROPINQUA LIBERTAS]
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    LUCE FABBRI
    [seleção e organização de Gianpiero Landi]
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    PDF da tradução para o português
    PDF da edição original

     


    A BANDEIRA VERMELHA CAVALGA NA REVOLUÇÃO- RUBÉN TREJO
    Este texto é o segundo capítulo do livro Magonismo – Utopía y Revolución, de Rubén Trejo. Por meio de uma profunda pesquisa documental, o autor detalha as alianças e traições, as conquistas e derrotas do exército libertário durante a Revolução Mexicana. Apesar do grande objetivo em comum – por fim ao governo do ditador Porfirio Díaz – o exército era composto por diferentes grupos com distintas pretensões e ideologias. Nas duas principais frentes estavam os maderistas, apoiadores de Francisco Madero, e os magonistas, apoiadores de Ricardo Flores Magón e reunidos em torno da Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano. O último é o grupo onde lutavam os anarquistas: neste capítulo, Rubén Trejo conta a história de suas lutas, ascensões e queda.

    Capítulo traduzido para o Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA).
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    Baixe o artigo completo aqui: Ruben Trejo – A Bandeira Vermelha Cavalga na Revolução