
Pegue uma história e a despedace. Cada caco um pequeno capítulo, uma peça de um quebra-cabeça que quando organizado na sequência matemática de Fibonacci – 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21… – forma a imagem de uma novela. Se essa novela for tocada com melancolia, seu som é chamado de Fibonacci Blues. O primeiro conhecido dessa espécie veio ao mundo neste ano, escrito por Edson Cruz.
Editor do site Musa Rara, organizador da antologia poética Musa Fugidia (editora Moinhos), coordenador de Oficinas Literárias e acima de tudo poeta, Edson Cruz dispensa maiores apresentações – mas alerto que se você ainda não leu Ilhéu e O canto verde das maritacas, ambos da editora Patuá, está fazendo alguma coisa errada com sua vida literária. Neste 2021, Edson lançou Fibonacci Blues – uma novela fractal pela Kotter Editorial e inscreveu seu nome em uma das mais badaladas crises da ficção. Você sabe, a ficção vive de crises, e a atual crise de confiança entre autor e leitor, se não é inédita, ao menos tem feições bem contemporâneas.
Digo isso, pois Fibonacci Blues é feito de pequenos fragmentos que se conectam de maneira dispersiva, sem necessários nexos de causa nem aparentes erros de continuação. Cada fragmento – caco, peça – basta a si mesmo e, ao mesmo tempo, se conecta com o enredo volátil da novela: chamamos o gênero de novela pelo simples fato de assim ela ter sido nomeada pelo autor, mas Fibonacci Blues poderia tranquilamente ser chamada de partitura ou ideia, e certamente cairia muito bem a alcunha de imagem.
Os fragmentos são de diferentes naturezas: a maioria deles é inédito, contado a nós em primeira mão pelo narrador; outros são empréstimos de textos e trechos de velhos e novos escritores; e, por fim, provérbios, pensatas e excertos de jornais e revistas.
Fragmentos desses fragmentos recebem enorme relevância na história. É o caso de Adilson – talvez uma espécie fractal de protagonista – que aparece pela primeira vez no terceiro fragmento, ou se preferir, terceiro capítulo. Tal qual um pirilampo, sua luz se acende de tempos em tempos, como um fio narrativo (que nada mais é que um falso vislumbre de linearidade), por onde é possível ler parte da história através de um personagem. Contudo, na metade do livro descobrimos que na verdade Adilson é o protagonista de um texto de Campos de Carvalho. O que Edson Cruz faz é pegar Adilson emprestado para conduzir um pedaço de sua narrativa.
É assim, por esses enlaçamentos de diferentes vozes, que o livro se constrói. Caso fosse chamado de partitura, estaríamos diante de um blues feito de samplers e orquestrado com inéditos rifes e distorcidos solos que nos soariam como improvisos do jazz. Caso fosse uma imagem, seria um fractal: fragmentos geométricos repetindo infinitamente a si mesmos, e aqui temos um detalhe interessante: a imagem repetida infinitamente não é a do narrador, não é de Adilson e nem é de nenhum escritor citado: é do autor Edson Cruz.
Essa característica insere Fibonacci Blues numa crise bastante contemporânea da ficção. Dá pra notar pelos traumas e cicatrizes que estamos num período histórico recheado de crises: sanitária, econômica, política, humanitária, bélica e etc. A crise da ficção é apenas mais uma delas e é, ao mesmo tempo e como não poderia deixar de ser, uma consequência de todas elas. Resumidamente, a crise da ficção é uma crise de confiança entre autor e leitor. A criação de personagens e cenários hoje carece de uma raiz no real, de um pé no chão – desenhar castelos no ar e personagens deslocados de qualquer conexão com a realidade está cada vez mais difícil: há um desinteresse de autores e leitores, e também da crítica, pela ficção em sua forma absoluta.
É bem provável que essa dificuldade seja consequência das inúmeras crises sociais que vivemos, como se a literatura não pudesse virar as costas e se furtar a refletir sobre elas. O fato é que essa esse cenário levou à ascensão de literaturas do eu, como a autoficção, a pós-ficção e as narrativas de memória. Uma característica dessas literaturas é a turvação da fronteira entre autor e narrador: uma zona cinza em que essas duas instâncias se confundem. Em Fibonacci Blues, Edson Cruz se posiciona exatamente nessa zona.
Os fragmentos emprestados de outros escritores e outras publicações não são repertório de nenhum personagem do livro, mas de seu autor, que responde também pelos temas que os fragmentos tocam. Autor e narrador se aproximam e se distanciam como se dançassem no ritmo de um jump blues, mas com todo assanhamento das melhores cenas de Grease.
Fibonacci Blues não existe para responder a essa crise da ficção; existe como parte dela, como sua maturação. Por fim, caso não se chamasse novela e sim ideia, esse livro poderia ser definido como uma grande reflexão: autor e narrador refletidos, lendo um nos olhos e nos ossos do outro suas próprias palavras e assim, num exercício contemporâneo de alteridade, compondo suas próprias ideias a respeito do fazer literário, da natureza da fabulação, especialmente nesses nossos dias turvos, tão turvos que já podem ser chamados de noite.
[jr. bellé] – originalmente publicado em Mallamargens.