
Há poucos meses estive no México e achei por bem fuçar sebos e livrarias em busca de algo mais contemporâneo do que Octávio Paz e Efraín Huerta, minhas solitárias fronteiras na poesia mexicana. Por sorte encontrei inúmeros exemplares da coleção La Centena Poesía por uma pechincha. Trata-se de reedições de importantes obras de gerações recentes em formato de bolso. Botei na sacola A la salud de los enfermos, de Juan Domingo Argüelles, Cantar del Marrakech, de Juan Carlos Bautista, Donde habita el cangrejo, de Eduardo Langagne e este La espada de san Jorge, de Héctor Carreto. Por ser pouco conhecido por nós, leitores lusófonos - creio que Carreto ainda não foi traduzido para o português -, com gosto me aventuro na tradução de três poemas de seus poemas.
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A um empregado
Te incomoda, empregado Vargas,
que me deite com sua esposa?
Use a lógica, meu amigo;
sou mais bonito - fazer o quê,
e sou seu chefe,
lembre-se.
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Vaidade de vaidades
Farrah Fawcett-Majors, a de dourados cachos,
Bo Derek, a loira de tranças africanas,
Linda Carter, a Mulher Maravilha,
e todas as deusas de Hollywood
estão profundamente indignadas
porque Héctor, o poeta,
prefere cantar a ti, oh doce Lesbia,
modesta secretária de banco.
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As pernas de Hammelin
I
Certo dia a secretaria foi sem meias ao trabalho.
Isso trouxe cegueira aos guardas
e júbilo aos pássaros,
que cantaram com força.
O chefe enlouqueceu: não acreditou ter em frente
um império de pele sobre duas sapatilhas:
o que dizer do brilho que desperta essa paisagem,
o que dizer do pé,
pele metida em outra pele.
O intendente, espuma nos lábios,
não saiu mais do banheiro
e as outras secretárias, boquiabertas,
se tornaram fruta amarga
e perderam dentes, lábios masculinos.
II
Roma ardeu:
transformaram o escritório
em um punhado de ratos abestalhados.
Magia negra?, magia verde?
A blusa de sempre, a saia de sempre,
os saltos de sempre.
Então, porque veio
sem meias?, esqueceu? foi de propósito?
(Ela sorri,
como se não soubesse do assunto;
suas pernas, no entanto, continuam esfregando o ar
até acender o edifício.)
III
Enfim, só faltou nesta história
o príncipe azul que pediu sua mão,
perdão,
o pé.
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Héctor Carreto nasceu na Cidade do México em 1953. Poeta, escritor, tradutor e editor, é também professor e pesquisador na Universidade Autônoma da Cidade do México (UACM). Em 2002 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Aguascalientes, um dos mais importantes do país, pelo livro Coliseo. O estilo de Hector é bastante idiossincrático - se vale da mitologia para ressignificá-la; lança mão de diversas estruturas retóricas para além do verso livre; se cobre de lírica lúdica a fim de expressar temas delicados. Todos os poemas aqui traduzidos foram retirados do livro La espada de san Jorge (1982), pelo qual recebeu o Premio Nacional de Poesía Carlos Pellicer.
[jr.bellé] – originalmente publicado no Medium.